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UM EXEMPLO A SER SEGUIDO

G.Neto

Ano passado pouco antes do acidente

Desde o inicio da Temporada de 2003, depois de uma longa ausência, vem aparecendo no pelotão da Elite do Rio de Janeiro um atleta que, para muitos, estaria acabado definitivamente para o ciclismo, tal a gravidade do acidente que lhe roubou a oportunidade de disputar o Campeonato Brasileiro Master B, sonho acalentado durante todo o ano de 2002.

Talvez muitos tivessem desistido e dado a si próprios a desculpa da idade. Sabemos todos nós e eu, particularmente, como é difícil uma recuperação do tipo de acidente que sofreu, ainda mais quando já não se tem 20 anos de idade.

Mas quem disse que ele não tem? Será mesmo que o que vale é o que está escrito no papel? Nos nossos registros de nascimento? Eu acho que não!

Se valesse, não o teria visto na primeira etapa do Campeonato Estadual de Resistência, na Rio Teresópolis, aborrecido com um furo de pneu que o alijou da prova quando estava super bem; se valesse, não o teríamos visto no pódio da Prova Inconfidência, no último dia 20 de abril, quarto entre os melhores do Brasil; se valesse, não estaria na Prova de Espera, na final da Volta Internacional do Rio de Janeiro, tentando fugir a todo momento; e, por fim, se ainda valesse, não o teríamos visto, no último domingo (04/05), no pódio da Elite do Rio de Janeiro ocupando o segundo lugar. Havia perdido o primeiro para um dos melhores chegadores do Rio, exatamente o Leandro Lacerda, (CCSJB) da galera de Valença, o que não é pouca coisa. O Leandro, além de muito jovem, acabava de participar da Volta Internacional do Rio de Janeiro. E pra lá, só foram os melhores!

E como ele conseguiu? Pura sorte? Não!... Na quarta volta, (20km) num total de 17 (80), aconteceu uma fuga de 3 corredores: um deles era o Marcio. Subiu os degráus do pódio com seu ego lá no espaço; afinal, o tempo passado entre o grave acidente sofrido e este pódio é de apenas 8 meses.

Satisfeito mas curioso com sua rápida recuperação, fui a ele perguntar:

Marcio, na premiação das equipes do campeonato de 2002, como representante da Casa Portugal, você subiu no podium ainda de bengala. Agora, 4 meses após, você já está Pódio da categoria maior do Rio de Janeiro. Qual é a mágica?

- Como grande parte dos ciclistas do Rio sabem, fraturei o fêmur em setembro último, lá em Bento Gonçalves, RS, dois dias antes do inicio do Campeonato Brasileiro de Master. Tive muita sorte de encontrar pessoas que atuaram de forma brilhante e me ajudaram muito na recuperação. Acho que se não estivesse com Gilda (Gilda Esteves, sua esposa) no momento do acidente as consequências poderiam ter sido muito graves. Lembro que fiquei deitado na faixa amarela central da estrada com Gilda mandando não me mover e, ao mesmo tempo, sinalizando aos poucos carros que passavam. Ainda no chão, tinha muita vontade de participar do brasileiro e fiz comentários ridículos. A primeira coisa que falei pra Gilda foi "acho que não vai dar pra fazer a prova de montanha". Não sabia que a perna estava quebrada. Independente da dor sempre pensei em voltar a pedalar. Isso ajudou muito.

Na premiação das equipes, dezembro de 2002, ainda de bengala
A obstinação: até 3 horas no rolo.

Tá certo que a vontade sempre ajuda; mas foi só isso?

- Não Gilberto! Tudo começou com o médico em Bento Gonçalves, que me indicou um cirurgião no Rio de Janeiro. Fui operado no Copa D'Or. No terceiro dia após a cirurgia iniciei a fisioterapia. O que mais me lembro é como minha perna ficou rigida. Não conseguia dobrar o joelho. Praticamente fiquei um mes sem dormir direito. Fiz fisioterapia todos os dias não importando a dor. Tive muito apoio dos amigos. Muitas pessoas foram no hospital em Bento Gonçalves, no Rio e na minha casa. O final do campeonato do ano passado foi comemorado lá em casa; toda a equipe tava la com Geraldinho, Claudia Tourinho, Chico, Silvio, Alvaro... todos. Todos deram muita força

Quando você voltou a pedalar?

- Em dezembro subi no rolo pela primeira vez. A perna direita estava bem fina e muito flácida. Girei 30 minutos e não senti dor. Todo dia aumentava 10 minutos. Dia 24 de dezembro pedalei 3 horas no rolo. Gilda queria me matar; dizia que ia soltar os parafusos. Desde o inicio meu técnico me orientou. Grande amigo que teve a pré disposição de treinar um pangaré como eu. Sou treinado pelo Rogerio Muller há alguns anos. Ele me conhece bastante como atleta veterano e tem a vantagem de, além de ser um profissional da área, ser um ex ciclista. Este ano ele já me fez rodar 5.500 km.

Mas você só rodou no rolo? E na rua?

- Em fevereiro comecei a ir para Rio Teresopolis. Fomos um pequeno grupo: Silvio, Veronica, Tania e Gilda. Ao final comemoramos muito. Nessa fase começou a atuar na minha recuperação minha cunhada e Psicóloga Desportiva; a Tania, irmã de Gilda. A principal preocupação era controlar minha ansiedade para evitar qualquer tipo de lesão. Por muitas pedaladas fui obrigado a manter o ritimo na roda de Gilda ou Tania. Fui proibido de perseguir qualquer ciclista. Lá pelo carnava,l Tania e Rogerio começaram a me liberar para fazer uma forcinha a mais. Começamos a traçar as metas para meu retorno e ficamos com muita esperança de conseguir completar a 21 de abril. Tive diversos treinos de mentalização e concentração, para não exagerar em momento algum evitando qualquer problema ao meu retorno.

Seu desempenho foi além do esperado na 21 de abril e o resultado na primeira etapa da Copa de Outono surpreendente. Voce se acha recuperado? Se acha pronto para novas vitórias?

A primeira vez na rua
Na inconfidência quarto entre os melhores

- Acho que resultado não significa muita coisa. Um vencedor não é quem chega em primeiro ou quem sobe no podium. Acho que a vitória principal é conhecer suas limitações e saber vencê-las. É claro que para o meu ego o resultado foi muito bom, pois não tinha certeza se terminaria. Quanto a domingo, tive uma feliz oportunidade e soube aproveitá-la; acho que isso é o ciclismo.

A maior vitoria foi voltar a pedalar e a andar mesmo que mancando um pouco. O descanso de seis meses está começando a fazer efeito e espero continuar a tem um bom desempenho, independente de resultado.

Marcio Brandão Martinez, um exemplo a ser seguido por todos que desistem ao primeiro obstáculo. Um exemplo de perseverança e obstinação, mas, principalmente, de amor ao esporte.

Um beijo na vitória da esposa Gilda Esteves

Vejo na foto ao lado um dos motivos da rápida recuperação. O que vocês acham? .