Apresentação: André Pavani
O SESC Araraquara proporcionou aos amantes do ciclismo no dia 25 de junho, um encontro memorável com aquele que considero um dos maiores ciclistas de todos os tempos, ao lado de nomes como Jacques Anquetil, Fausto Coppi, Graeme Obree, Miguel Indurain, Lance Armstrong, Bernard Hinault. Me refiro a Anésio Argenton.
Uma justa homenagem do SESC, aliás, a primeira que ele recebeu depois que se aposentou. Uma pena não ter aparecido nem ao menos um representante da Fundesport para reverenciar esse mito que sempre representou de forma brilhante e apaixonada nossa cidade nas competições, mesmo quando já fazia parte da equipe Caloi.
Não tenho o menor receio de falar isso, se fosse nos dias de hoje, com certeza ele seria atleta de ponta de alguma grande equipe do Pro Tour (principais equipes que participam do calendário mundial do ciclismo profissional), e não lhe faltariam convites para representar outras cidades do interior nas competições nacionais.
Em uma época com poucos recursos técnicos e financeiros, não que esse cenário tenha mudado muito, o garoto pobre entregador de um armazém conheceu o ciclismo e passou a colecionar vitórias e marcas até hoje não superadas.
Dentre seu feitos mais marcantes, Argenton conquistou uma medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos de Chicago em 1959 – a única até hoje na modalidade, bem como um nono lugar na prova de velocidade na Olimpíada de Melbourne em 1956, e quinto e sexto lugares nas provas de velocidade e no quilometro contra o relógio respectivamente, em Roma 1960.
Isso tudo sem contar com nenhum tipo de apoio da extinta Confederação Brasileira de Desportos. “Fui para as Olimpíadas sozinho. Não conhecia nada, não tinha um técnico, ninguém que pudesse me ajudar", afirma. “Para chegar na Austrália viajei uma semana em aviões do correio”. Também contou que em Roma seu massagista foi ninguém menos que Aristides Jofre, pai do pugilista Éder Jofre que havia se contundido e não pode participar dos Jogos.
Com uma simplicidade característica dos grandes campeões, deu uma lição de vida e paixão pelo esporte, e pude me reencontrar com aquela figura carismática que mexia em minhas bicicletas na infância. Quando o questionei o que significava o ciclismo para ele ouvi um emocionante “ahh, significa tudo, é minha vida!”. Confesso que foi muito complicado não cair no choro nessa hora.
Saudações Cicloecológicas, André Pavani
Jogos Abertos: (Venceu praticamente todos os que competiu, prova de KM contra o relógio): - Rio Claro em 1949; - Jundiaí em 1950; - Ribeirão Preto em 1952; - Sorocaba em 1954; - Piracicaba em 1955. Campeonatos Brasileiros (Velocidade): - Florianópolis em 1952; - São Paulo em 1954/ 55/58. Campeonatos Sulamericanos: (Km e Velocidade): - Uruguai em 1952 – Medalha de Prata - São Paulo em 1954 e 56 – Medalha de Ouro - *Venezuela em 1959 – Venceu a prova de KM contra o relógio, mas não levou o troféu. Jogos Panamericanos (Km Contra o Relógio): - México em 1955 – 4º colocado; - Chicago em 1959 – Medalha de Ouro (único brasileiro medalhista de ouro em Jogos Panamericanos no ciclismo)
Curiosidades No campeonato Sulamericano de 1959 em Caracas na Venezuela, o recordista mundial, um venezuelano, estava com o melhor tempo da prova do KM contra o relógio até o último atleta a largar, o brasileiro Anésio Argenton. Argenton pulverizou o tempo do venezuelano vencendo a prova, deixando o velódromo da cidade de Caracas a um silêncio fúnebre. O troféu de campeão ele não trouxe, porque simplesmente já estava gravado com o nome do campeoníssimo local... Nas Olimpíadas tanto de Melbourne em 56 quanto na de Roma em 60, Argenton não contava com nenhum tipo de apoio, nem massagista, nem técnico, nem sequer alguém para segurar a sua bicicleta para a partida da prova do KM contra o relógio. Mesmo assim, obteve a 6ª colocação na prova do KM em Roma. Nessa Olimpíada, a de Roma, o pai do grande boxeador Éder Jofre foi o seu prestativo massagista...
Dias Atuais Aposentado do esporte de competição, por assim dizer, desde o final da década de 60, Anésio Argenton continuou ligado ao ciclismo, colaborando com seus conhecimentos como coordenador de equipe e dirigente esportivo da equipe de Araraquara, cidade essa que possui enorme tradição nesse esporte, obtida também através dos tempos por grandes nomes do pedal, como Adolpho Fécchio, falecido aos 76 anos em 2001, que por 18 vezes foi campeão do interior em provas de resistência, Edegar Domingos Branco, Belletti, Schultz, Rubens Paúra, entre outros, posteriormente sucedido por Osmar Mastriaga, e Cristóvão Marinaldo Monteiro, respectivamente nas décadas de 70 e 80, e por Elivelton Pedro, Luís Fernando Berto, Luís Augusto Maquioli e Cléber de Almeida Gomes, entre outros, nos anos 90 e atuais. Recentemente, cabe destacar o nome do garoto Thomaz Antelmo de Souza, grande revelação do ciclismo paulista, também da cidade de Araraquara. Argenton trabalhou por muitos anos com sua bicicletaria, hoje desativada, no bairro de Santa Angelina, na rua São Bento, defronte a sua residência. E por muitos anos sua história de vida e sua carreira serviu de exemplo para o surgimento de toda uma geração de atletas e esportistas, não somente do ciclismo.
Finalizando... Anésio Argenton tornou-se um ícone do esporte nacional e mundial, por sua carreira memorável marcada de fatos intrigantes e da extrema dificuldade de sua época. Em seus feitos internacionais, a qualidade, tecnologia empregada, o peso das bicicletas para velódromo dos demais adversários de outros países eram incomparavelmente melhores do que as que ele utilizava; sem técnico, sem preparador físico, sem massagista, sem auxiliar, sem ninguém. Por tudo isso e pela sua história fascinante, por ter levado o nome de Araraquara com o êxito de seus feitos esportivos nos principais eventos esportivos do mundo, Argenton ocupa um lugar de destaque no hall das grandes personalidades de Araraquara, como Ruth Cardoso, Ernesto Lia e Mestre Jorge, Careca, Luís Antônio e Zé Celso Martinez Correa e Inácio de Loyola Brandão.