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TREINAMENTO EM CICLISMO

 

Todo treinamento em esporte de alto rendimento submete o organismo a um estresse físico e psicológico intenso e constante. Diversos sistemas e órgãos são solicitados durante um treinamento, ocasionando um processo de adaptação das células, tecidos, órgãos e sistemas, com a finalidade de preparar o organismo para suportar cargas mais elevadas.

O treinamento de um ciclista inicia-se necessariamente por um planejamento a longo prazo,  deve estar fundamentado em uma periodização, onde serão considerados de maneira minuciosa algum fatores como: objetivo do atleta/competição alvo, tempo disponível em semanas/meses ou anos até a data desta competição, tempo disponível para o treinamento semanal e diário do atleta, nível atual de condicionamento do atleta e nível dos adversários, entre outros fatores. Desta forma, será possível traçar metas, elaborar planilhas e executar os treinamentos diários buscando-se uma evolução do nível de performance de forma gradativa e contínua, conquistando resultados consistentes e que ajudem o atleta a alcançar seus objetivos futuros.

O ciclismo de estrada é um esporte onde se realiza um esforço fisiológico dos mais intensos, se comparado a outras modalidades, uma vez que as provas tem percursos muito longos (normalmente entre 100 a 200 km), e com longos períodos de duração (entre 3 a 6 horas), o que faz da capacidade de resistência aeróbia um alicerce importante no treinamento a longo prazo.

O treinamento de resistência gera adaptações cardiovasculares e respiratórias que influenciam de maneira muito significativa a liberação de oxigênio para os músculos em atividade. A capacidade de realizar exercícios de resistência depende da força aeróbia máxima que pode ser desenvolvida (VO2max) e da fração de VO2max que pode ser sustentada. Em exercícios que envolvem uma grande massa muscular, como a corrida e o ciclismo, o VO2max é mais comumente limitado pela liberação de oxigênio aos músculos em ação do que pela capacidade dos músculos de extrair e de utilizar o oxigênio.

Outras alterações ocasionadas pelo treinamento de resistência são: o aumento da densidade das mitocôndrias do músculo, aumento da densidade capilar, aumento da área relativa da secção transversa das fibras tipo I (fibras musculares especializadas em trabalhos de resistência), elevação do conteúdo intramuscular de triacilglicerol (triglicerídios, que são a principal forma de armazenamento de gordura no corpo, constituindo mais de 95% da gordura corpórea) e aumento da capacidade de utilizar lipídios como fonte de energia durante o exercício. Por esse motivo, atletas de endurance se exercitam com intensidades que ficam entre 80 a 90% de sua capacidade máxima para metabolismo aeróbio.

A melhora da capacidade aeróbia com o conseqüente aumento do limiar anaeróbio deve ser o objetivo principal dos ciclistas que competem em provas de estradas, sejam elas de contra-relógio ou em pelotão, pois atletas com limiar anaeróbio mais alto conseguem impor uma freqüência de pedalada mais elevada com cargas (metragens) mais altas, o que resultará em velocidades médias muito maiores.

Com o treinamento, o atleta deve ser capaz de suportar cargas com intensidades cada vez maiores e com produção menor de lactato, bem como atingir níveis mais elevados de lactato em atividades intensas.

Com a finalidade de prescrição e avaliação do processo de treinamento, são empregados diversos testes laboratoriais que fornecem as informações fisiológicas para avaliar o nível de condicionamento físico de um atleta, bem como de suas deficiências a fim de saná-las com o treinamento.

Para a determinação do limiar de lactato no ciclismo, o protocolo de teste mais utilizado consiste em um exercício na bicicleta ergométrica, precedido de um aquecimento com cargas leves por cerca de 5 a 10 minutos. O exercício então consistirá em um aumento progressivo da potência (geralmente iniciando em 100 watts com aumento de 20 a 30watts) a cada  2 a 4 minutos, com o ciclista pedalando a uma freqüência em torno de 90 a 100 rpm. O exercício é interrompido quando o atleta não conseguir mais manter a freqüência de no mínimo 90 rpm. Em cada taxa de trabalho é retirado sangue para medir a concentração de lactato, que será representada graficamente contra o consumo de oxigênio no momento em que a amostra é coletada, anotando-se também a FC em cada estágio. O resultado mais importante deste teste é a curva de rendimento de lactato, obtida através de um gráfico com os dados da freqüência cardíaca e do lactato sangüíneo para cada carga de trabalho (medida em watts) durante o teste.     

Diversos estudos sugerem que é muito eficaz o treinamento realizado a uma intensidade que corresponda ao limiar de lactato do indivíduo, com o nível mais alto de exercício sendo mais eficaz. Esse nível geralmente corresponde ao ponto em que o nível de lactato sangüíneo alcança 4 mM, sendo aconselhável reavaliações periódicas com a finalidade de detectar possíveis alterações na capacidade aeróbia.

Apesar do ciclismo ser um esporte onde a resistência aeróbia é sem dúvida um fator fundamental, as competições e os treinamentos desenvolvem-se a uma velocidade bastante elevada, o que exige do atleta uma capacidade aeróbia maior. Muitos ciclistas iniciantes não conseguem manter a velocidade alta por muito tempo devido a uma pequena capacidade aeróbia, mesmo que às vezes estes possuam músculos muito fortes e capacidades anaeróbias muito altas.

Segundo LINDNER (1993), para os treinamentos de longa distância, trabalharíamos com uma intensidade tal que a produção de lactato sangüíneo não superasse os 3 mM, em distâncias que variam entre 50 a 300 km, dependendo da idade, do sexo e da categoria do atleta. Para o desenvolvimento da resistência específica de competição, adotaríamos intensidades de lactato entre 3 e 6 mM, em repetições de 5, 10, 15 ou 20 km. Para a fase de desenvolvimento da resistência de velocidade e velocidade, a intensidade ideal de treinamento é bastante elevada, com a taxa de lactato chegando entre 6 a 20 mM, sendo utilizado o método intervalado, com distâncias de 200, 500 e 1000m para o desenvolvimento da velocidade e distâncias de 1000, 2000, 3000 e 4000m para o desenvolvimento da resistência de velocidade. Para um treinamento especial de força em montanha, o autor aconselha a utilização dos seguintes parâmetros, de acordo com a duração da carga (quadro 1).

 
 

Duração da carga

Nível de lactato

Mais de 60 min

2 a 4 mM

30 a 60 min

3 a 5 mM

2 a 30 min

4 a 7 mM

Menos de 2 min

Mais de 6 mM

 
 

Quadro 1: Nível de lactato desejado de acordo com a duração da carga em treinamento de ciclismo (Adaptado de LINDNER, 1993).

 
 

Nos dois quadros abaixo podemos comparar os testes de lactato de um atleta em fase inicial de carreira e outro atleta olímpico com 15 anos de treinamento. Observem as diferenças existentes.

 
WATTS 00 100 125 150 175 200 225 250 00

TEMPO

00

4

8

12

16

20

24

28

31

FC

80

143

157

160

167

171

181

186

139

LACTATO

1.7

2.0

2.5

3.0

3.8

5.2

7.9

9.6

2.7

 
  Final do Teste  
 

Quadro 2: Escanograma de um ciclista em começo de carreira em teste sobre bicicleta ergométrica (UDESC, Prof. DELLA GIUSTINNA, 2001).

 
 
 
WATTS 00 125 150 175 200 225 250 275 300 400 00

TEMPO

0

4

8

12

16

20

24

28

32

36

38

FC

69

91

127

139

145

152

159

167

176

193

138

LACTATO

1.7

1.2

1.5

1.3

1.6

1.8

3

4.3

6.1

8.1

11.3

 
  Final do Teste  
 

 Quadro 3: Escanograma de um ciclista experiente e de alto nível em teste realizado em bicicleta ergométrica (UDESC, Prof. DELLA GIUSTINNA, 2001).

 
 

Analisando os dois testes, observamos que na mesma carga, 200 watts, o primeiro atleta já estaria pedalando em condições anaeróbias, enquanto o segundo estaria em uma intensidade muito baixa, podendo manter esta mesma intensidade por várias horas. A FC dos dois atletas também é diferente para o mesmo esforço, com valores de 171 e 145 bpm respectivamente para o primeiro e o segundo atletas. Podemos concluir que a utilização apenas de parâmetros como FC ou carga em watts com a finalidade de definirmos a intensidade ideal de esforço, não nos levará a resultados tão completos e precisos quanto a utilização destes dados somados à avaliação do lactato sangüíneo, pois assim teremos a exata noção do que está acontecendo no organismo do atleta.

No gráfico abaixo, podemos observar a melhora da curva de lactato de um ciclista após 5 meses de treinamento, onde a intensidade dos treinos foi determinada a partir dos resultados do primeiro teste. Na época em que começamos o trabalho com este ciclista, sua média horária em provas de contra-relógio na distância de 30 km era de 39,5 km/h. Após 5 meses de trabalho orientado em função da produção de lactato sangüíneo, o mesmo atleta conseguiu uma performance de 45 km/h de média na mesma distância, o que está de acordo com a curva apresentada no segundo teste em relação ao primeiro.

 
Gráfico 1: resultados de dois testes de curva de lactato em bicicleta ergométrica antes e depois de 5 meses de treinamento, de um atleta da modalidade de ciclismo de estrada.
 

Portanto, a única forma de se treinar adequadamente, é através de uma avaliação precisa do estado atual do atleta, um planejamento adequado e finalmente, a realização do que foi planejado. Lembrem-se sempre, treinamento é ciência e não uma receita de bolo igual para todos os atletas. Cada um tem seu nível, suas deficiências e seus atributos.

Procure orientação adequada de um profissional e boa sorte!
 
Texto publicado na Revista Bike Action, em colaboração com o Ciclista Márcio May.

 

Rogério Luis Müller – CREF 000805-G/SC

Assessoria e planejamento em treinamento de ciclistas
Especialista em ciência do condicionamento físico individualizado
personal@rogeriomuller.com