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Christopher Sellier: O Rei Panamericano do Km

Christopher Sellier nasceu em Trinidad Tobago, um país, assim como o Brasil, sem nenhuma tradição no ciclismo.  Com apenas três velódromo e apenas um em boa condição do uso, Chris teve que superar todas as adversidades da estrutura oferecida pelo seu país para chegar ao topo do ciclismo mundial. Chris começou no Ciclismo em 2002, quando tinha 16 anos de idade.

Como junior, ele foi o único Ciclista da história deTrinidad Tobago a vencer, por 3 anos consecutivos, as provas de sprint e Km do campeonato Nacional (2002-2004).  Como Elite ele foi Campeão Nacional de Velocidade Individual em 2005, 2007-2010 e campeão do Km em 2005. Após o título de 2005, Chris só voltou a competir o Km em 2010 quando foi novamente campeão nacional.

Em 2010, além dos títulos Nacionais, Chris colocou o seu país no topo do mundo do Ciclismo de Pista. Aos 25 anos de idade, ele conquistou, no ultimo Campeonato Panamericano realizado em Aguascalientes/México, a medalha de Ouro no Km e quebrou o recorde Panamericano estabelecendo a nova marca de 1:00.995. Com este resultado, Chris assumiu a primeira posição do Ranking da UCI e se tornou o primeiro e único Ciclista de Trinidad Tobago a atingir o topo do Ciclismo mundial e quebrar um recorde Panamericano.


O Início – Apoio do Pai e o uso de equipamentos mais velhos do que ele

Eu comecei a competir quando eu tinha 16 anos. No início eu competia tanto em provas de estrada como de pista. Nesta época eu não havia ainda decidido sobre qual especialidade seguir, apenas quando eu atingi o meu ultimo ano como Junior que eu decido me dedicar à velocidade.

Nesta época, o meu técnico era o meu pai e foi um período muito difícil, porque havia um envolvimento emocional. Ele sempre me cobrando bons resultados, principalmente quando eu não ia bem nas provas... Eu, honestamente, estava apenas me divertindo. Eu não esperar muito de mim. Mas o meu pai desejava o mundo para mim e eu não entendia isso! Do ponto de vista de um pai, é sempre bom ver o seu filho dar o melhor de si e obter bons resultados.

Quando eu comecei a competir eu não tinha muito dinheiro, então eu usava tanto as sapatilhas quanto a antiga bicicleta do meu pai. Era uma boa bicicleta, de aço, feita à mão – uma Masi. Meu pai usou esta bicicleta na Olimpíada de Monique. Minha bicicleta de Estrada também era um quadro de aço. Era difícil competir contra ciclistas com melhores equipamentos e bicicletas. Era uma batalha mental cada vez que eu competia. Mesmo treinando duro, eu me sentia mal usando sapatilhas e bicicletas que eram mais velhas do que eu. Isso durou até eu completar 18 anos quando, felizmente, eu tive um pouco de ajuda na forma de patrocínio e ganhei a minha primeira “boa” bicicleta.

Meu Primeiro Patrocinador e a Minha Primeira “boa” Bicicleta

Meu primeiro patrocinador foi um ciclista que o meu pai treinou quando eu era mais novo. Seu nome: Deon Lawrence De Souza.

Bom, ter uma bicicleta nova levanta a moral de qualquer um! Eu finalmente senti que poderia competir com o resto dos ciclistas.

Todos tinham uma bike de alumínio ou carbono e finalmente eu tinha a minha própria bicicleta de alumínio. Era uma bicicleta Tiemeyer feita sob medida (foto).


Chris (cabeça baixa) e o seu técnico - Copa do Mundo, Manchester.

O atual técnico e muito trabalho pela frente

Meu atual técnico é Renee Schmidt, da Alemanha. Ele vem me treinando a três anos, desde da época que eu estive no centro de treinamento da UCI, na Suíça. Quando eu deixei o centro de treinamento, eu decidi que ele deveria continuar a ser o meu técnico. Ele cresceu na Alemanha e desta forma, seu treinamento é similar ao que ele foi exposto, ou seja, muito trabalho duro =)

Ele realmente acredita no trabalho duro, mas também na importância de se ter momentos de descanso e laser. Sair de vez em quando e tomar um pouco de cerveja não tem problema algum desde que não seja em excesso. Seu treino de modo geral é realizado em ciclos de 2 semanas. 2 semanas de trabalho duro e um semana não tão dura.

Eu comecei o meu trabalho de base em outubro do ano passado e fiquei na Guatemala de outubro até dezembro. Neste período teve muito treino na estrada, alguma musculação e também um pouco de pista. A partir daí, teve inicio o trabalho específico de pista assim como de musculação. Pista 3-5 vezes na semana, com musculação 2-3 vezes na semana, permanecendo ainda o treino na estrada de 2-4 horas. Esse foi, até o momento, a preparação mais difícil que eu já fiz.


Principal Patrocinador

Meu principal patrocinador é a Companhia de seguros Beacon. Eles tem sido o meu patrocinador há 2 anos.
Eu não acredito que eu pudesse estar competindo se não fosse por eles. Eu atingi um ponto na minha carreira que eu preciso de suporte e eu preciso de dinheiro para isso. Felizmente, eu consegui ajuda na forma de patrocínio e isso é que tem me mantido.

 O governo também ajuda. Mas exatamente neste momento, eu estou tendo dificuldade em conseguir apoio para a continuidade dos meus treinamentos.

Foto: Clydeen Mc Donald

2009 - Gerald Hadeed, Chefe Executivo da "The Beacon Insurance Co Ltd", esquerda, entregando o uniforme do patrocinador
para o medalhista de Ouro do Campeonato Panamericano/2008 Christopher Sellier, em uma conferência para a imprensa
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Foto: Marcel Segessemann

Como no Brasil, Ciclismo não é um esporte popular em Trinidad Tobago

Honestamente, de modo geral, não há uma grande quantidade de competições no meu país, sejam de estrada ou pista. Ciclismo não é um esporte popular.  Futebol e atletismo são os principais esportes. Nós precisamos muito de um bom velódromo aqui. Mas devido ao fato do ciclismo não ser um esporte popular, nós não podemos ter um. O governo tem anunciado que será construído. Mas eu não vejo e não escuto nada sobre o inicio de uma construção. Eu espero que eles construam antes que eu me aposente. Seria muito bom para receber grandes eventos ou até mesmo acolher eventos como Panamericanos, Copa do Mundo ou quem sabe, campeonatos mundiais. Isso seria o incentivo extra que o ciclismo de Trinidad Tobago esta precisando.

A infra-estrutura para treinamento
3 velódromos, apenas um em boa condição de uso e sem segurança nas estradas

Nós temos 3 velódromos em Trinidad que podem ser usados. Entretanto, apenas 1 é seguro. Os outros 2 estão em péssimas condições. Eu moro há apenas 10 minutos do velódromo que é o mais frequentado e talvez seja por isso que eu goste tanto de velódromos  =)

Os outros ciclistas não possuem a mesma sorte que eu, por causa disso eles tem que treinar na estada ou nos velódromos sem segurança. Eu não gosto de treinar na estrada porque no meu país os motoristas não respeitam os ciclistas. Eu sei de 3 ciclistas que morreram atropelados nos últimos 3 anos e um grande numero de pessoas, incluindo a mim, que foram atropelados. Eu perdi o Panamericano no ano passo devido a lesões que eu tive por causa de um atropelamento. Assim, a grande maioria dos ciclistas de Trinidad que desejam evoluir, tem que ir embora e treinar fora do seu país.
 

Mesmo com toda a adversidade, um Campeão estava sendo criado

Em 2008 eu venci a prova de Keirin no Campeonato Panamericano do Uruguai e pela primeira vez eu experimentei a sensação de ser um campeão. Uma lágrima desceu do meu olho quando eu percebi que havia vencido. As pessoas não tem idéia da quantidade de treinos e sacrifícios que acontecem no ciclismo em qualquer nível.

Eu lembro de Panams em que eu nem me qualifiquei para os sprints. Eu lembro de ficar olhando os ciclistas no pódio, recebendo as suas medalhas e eu quase chorando porque eu não tive um bom resultado. Depois de tanto treinamento, não ter nada para mostrar.É duro.

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Treinando e Competindo para o Campeonato Panamericano

Em abril foram realizados, em Trinidad Tobago, 2 Grand Prix com a presença de ciclistas internacionais. Nós tivemos alguns campeões mundiais e olímpicos como Walter Perez e o campeão Frances Junior de velocidade individual.

Nós sempre conseguimos trazer ciclistas de nível mundial para estas competições. É uma boa preparação para Panamericanos. Eu gosto de competir antes de grandes eventos. Eu estive em Dubai com o meu treinador de Março a Abril. Ele também é o técnico nacional da UAE (United Arab Emirates), então ele me convidou para ir até lá treinar com ele e competir.


2010 - match sprint em Trinidad contra Roberto Chiappa da Itália

Chris e o seu pai: Anthony Sellier

Pan Am 2010 – Primeiro passo: Qualificação Nacional

Para a qualificação da velocidade por equipe era necessário fazer o tempo de 11.40 no velódromo de Trinidad Tobago.

Em Trinidad Tobago poucos ciclistas conseguem fazer um tempo abaixo de 11.40. Isso porque o velódromo é lento (460 m) e com muito vento. Apenas 3 conseguiram a qualificação. Eu, Njisane e Azikwe.

O outro sprinter, Hasseem, não conseguiu o tempo, mas a federação decidiu convocá-lo para a prova de Keirin.

 


Hora do Show – O Campeonato Pan Amamericano começa, mas ninguém tem nenhuma expectativa em relação à delegação de Trinidad Tobago

Eu fui para o México sem nenhuma expectativa. Eu sabia que eu tinha treinado duro, mas eu sabia que todo mundo fez a mesma coisa. Todos os países, todos os ciclistas estavam prontos. A seleção de Trinidad Tobago esteve em Los Angeles durante 8 dias e isso foi muito bom porque tivemos a oportunidade de adaptação ao velódromo de madeira. Todos nós já experimentado velódromos de madeira anteriormente, mas isso já fazia muito tempo. Eu não estava me sentindo muito bem, tenho que admitir. Eu sabia que estava na minha melhor forma, mas eu não estava conseguindo converter a minha velocidade de pernas à madeira. Mas nós treinamos.

A ordem de Largada da Velocidade por Equipe

A ordem de largada da velocidade por equipe foi decidida enquanto nós estávamos lá. A decisão foi tomada a partir dos tempos dos 250m e 200m lançado. A partir destes tempos é que o técnico da seleção de Trinidad Tobago decidiu a ordem de largada.

Eu tenho a melhor largada e o segundo melhor tempo dos 200m. Mas ao final, o técnico decidiu que ele não poderia me colocar como primeiro homem preocupado em como que eu deixaria Azikwe (o segundo homem). Então ele decidiu me colocar com terceiro homem, Azikwe como primeiro e Nijsane em segundo. Eu não estava muito confortável em ser o terceiro homem.... e eu tive duvidas de como seria a minha performance na ultima volta.


Foto: Njsane em segundo e Chiris em terceiro.

A primeira Prova do Campeonato Pan Am – A Velocidade por equipe
“No beeping”, sem medalha de Ouro mas com o primeiro Recorde Panamericano para Trinidad Tobago

Nós chegamos no México 3 dias antes da velocidade olímpica. Nós não fizemos muito mais do que nós já havíamos realizado durante nossos treinamentos antes do Pan. Nós apenas nos familiarizamos com a pista e realizamos alguns treinos em equipe.

No dia da prova eu estava realmente nervoso.... Como nós nunca tínhamos realizados uma prova de velocidade por equipes juntos ...eu realmente não tinha a menor idéia como eu me sentiria. Mas eu pensei: seja o que for, eu só tenho que fazer o meu melhor!

Para a nossa surpresa, o “starting Gates” não teve o aviso sonoro “beeping” e a contagem regressiva. Então, nós tivemos que ficar olhando para o relógio e acompanhar a contagem regressiva. Isso não afetaria o segundo e o terceiro homem, mas com certeza afetaria a partida do primeiro homem. E foi o que aconteceu. Nós REALMENTE fizemos uma partida péssima!
Njisane fez uma excelente segunda volta e eu não morri completamente e consegui fazer uma finalização razoável e classificamos em 4º lugar. Eu achei que nós realmente tivemos sorte em conseguir classificar para as finais, que aconteceram na parte da tarde. Me lembro do nosso técnico ter pronunciado algumas palavras antes da partida: "Nós temos que ganhar esta medalha!" A disputa do 3º e 4º lugar estava chegando e todos nos estávamos muito nervosos.

O inicio teve um começo muito bom e eu e Njisane estávamos nos sentindo muito bem. Njisane fez o tempo de 13.06 na sua segunda volta e eu 13.03 (eu acho) na terceira volta. Nós terminamos com a medalha de Bronze e a noticia, extra-oficial, da quebra do recorde panamericano, para a surpresa da MAIORIA.

Ninguém estava esperando nada de Trinidad Tobago.
 
Recorde Panamericano: Christopher Sellier, Azikwe Kellar e  Njisane Phillip 44.09”
 

A Conquista do Novo Recorde do Km – 2 dias após a velocidade por equipe

Na manha da prova do Km o canadense (Travis Smith) me perguntou "Qual o tempo que você espera fazer? Eu ri e respondi: ”1 minuto". Eu honestamente não tinha a menor idéia do tempo que eu iria fazer. Eu não fiz muitos Km nos últimos anos. Mesmo nos treinamentos eu não fazia Km. Eu fui para lá pensando eu fazer a minha melhor performance.... o que seria qualquer coisa abaixo de 1.06 =)

Eu comecei o Km como eu sabia que tinha que fazer. O melhor tempo antes da minha largada foi a do colombiano Marin, com o tempo de 1.02. Então eu não podia esperar nada melhor.

A primeira volta passou tão rápida e faltavam apenas 2 voltas, mas eu sabia que as próximas 2 voltas eram as cruciais. Eu estava com tanta dor quando faltava apenas 1 volta, mas eu sabia que as minhas pernas não eram tão lentas então eu apenas continuei e pensei ”você precisa manter o ritmo”. Quando eu atingi a linha de chegada eu estava quase em “modo de pânico” e as minhas pernas estavam queimando completamente. Eu vi os meus colegas de Trinidad torcendo por mim, então eu acreditei que tivesse feito um tempo “OK”.

E Trinidad Tobago mostrou para o Mundo todo o seu valor: Recorde Panamericano para Chris no Km

Quando eu desci da bicicleta foi que eu consegui ouvir que eu quebrei o recorde panamericano. Eu estava com tanta dor e começando a desmaiar devido à falta de oxigênio. Eu não sentia mais nada além da alegria daquele momento. Apenas cerca de 15 minutos após pedalar na bicicleta de estrada eu comecei a sentir a esperança da vitória crescendo. O ultimo ciclista a largar foi Travis Smith,o único Ciclista que poderia me bater. Ele é meu amigo, Mas eu desejei que ele perdesse =) Ele foi mais rápido do que eu em todas as voltas até que, na ultima volta eu consegui sentir toda a alegria de conquistar a medalha de ouro e a quebra do recorde.

Do sentimento de não esperar nada de mim até vencer e conquistar a medalha de ouro foi um longo caminho, um caminho de humildade que eu percorri até chegar aqui. Agora eu sei o que é ser um daqueles ciclistas que eu olhava no pódio, recebendo suas medalhas e tendo o prazer de ouvir o hino do seu país tocando. Palavras não podem descrever o que é estar no pódio e vivenciar este momento, que foi construído a base de muito trabalho duro.
 
Chris celebrando o seu Km e o novo recorde: 1.00.995

O dia da Velocidade Individual – Um dia após o Recorde Pan Am do Km

Eu estava realmente cansado. Para ser honesto, eu nem queria competir, mas eu estava ali representando o meu país e eu precisava fazê-lo da melhor forma possível.

De novo, eu não tinha a menor idéia do tempo que eu poderia fazer. Eu fui lá e fiz tudo o que eu precisava fazer e marquei o tempo de 10.177 e me qualifiquei em 7º (eu acho).

Classifiquei para disputa do 5º a 8º. Eu terminei em 5º, mas a organização me relegou a 8º. Eles argumentaram que eu saí da linha do sprinter.
Eu não concordo. Mas eles tomaram a decisão e esta foi final.



Medalha e Ouro e Recorde no kilo para Chris

E agora, olhando para o passado, o que representa ser um campeão em um país, como o Brasil, sem nenhuma tradição no Ciclismo?

Se tornar um campeão? Bem, Isso não vem fácil =) Todo o ciclista deseja a mesma coisa que você, e talvez mais do que você.

O que eu aprendi com a minha pouca experiência é que você não consegue controlar nenhum dos ciclistas que estão competindo contra você, mas você PODE controlar você mesmo. Faça o melhor que você pode fazer em tudo o que você faz. Seja na academia, na estrada ou na pista. Nada que vale a pena conseguir é fácil de conseguir!

Eu acredito que o sucesso da equipe, incluindo o meu, foi uma mistura do apoio do meu país, que promoveu suporte para os competidores, assim como o talento individual e o trabalho duro. Se não fosse pelo governo, nós não teríamos ido para LA antes do México.