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Superação, por Aline Paroliz

Convidamos a ciclista Aline Paroliz (Memorial/Prefeitura de Santos/Giant) para contar a sua história de superação após o acidente que a retirou das competições por um período de 5 meses. O acidente ocorreu no dia 11/10/09, durante a prova de critério por eliminação dos 73º Jogos Abertos do Interior. Na época, Aline liderava o Ranking Brasileiro e tinha conquistado, em junho, o título de Campeã Brasileira de Contra Relógio. Acompanhe o relato desta campeã que sempre manteve a fé e a esperança na sua total recuperação.

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O dia do Acidente: 11/10/09

Era mais uma prova, 11 de outubro de 2009, Jogos Abertos do Interior. Acordei animada. Estava bem treinada e confiante. Nem imaginava o que estava por vir. Era o primeiro sprint da prova critério por pontos. Estávamos em 4 atletas pra essa disputa. Da direita pra esquerda: Naty, Val, eu e Fernanda Souza. Naty e Val partiram antes. Fernanda estava do meu lado esquerdo e vendo que as duas haviam partido, partiu na diagonal, não tendo a percepção que eu estava ao lado dela. Estávamos a uns 40 km/h... Quando penso, vejo exatamente a cena de tudo o que aconteceu, em câmera lenta.

A Queda

Cai feio. Bati com a cabeça e com a lateral direita (fígado) no chão. Tive vários espasmos, não conseguia respirar.
Achei até que estava morrendo :-) Como estávamos à frente do pelotão algumas atletas que vinham atrás passaram por cima de mim e a coroa de uma delas passou em minha testa arrancando um bom pedaço dali.

Á Fernanda nada aconteceu, porque caiu próxima ao canteiro central da avenida.

 

Foto: Marcelo João "Farinha"

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Hospital

Fui ao hospital, fiz todos os exames, raios-X, tomografia da cabeça e nada foi constatado.

A intenção era suturar a minha testa e com certeza largar no dia seguinte. Porém na saída do hospital comecei a passar mal. Voltei e depois de mais exames foi diagnosticado um grande trauma no fígado.

Á primeira instância não compreendi muito bem a gravidade da situação. Só pensava em tomar um bom banho, me livrar de todo aquele sangue, que estava impregnado no meu cabelo, e do suor.

 O médico me explicou que eu teria que ficar internada, e que havia um sangramento dentro do meu fígado que se rompido poderia gerar uma hemorragia interna. Nesta hora a dor já estava aumentando consideravelmente. Nunca havia passado uma noite sequer num hospital. Nem um osso quebrado, nada! Sempre tive uma saúde de ferro. De repente me vi ali, sozinha, suada, ensangüentada. Estava chorando há um bom tempo, quando apareceu uma médica e me explicou que eu ficaria ali sem me mexer e sem me alimentar por no mínimo 7 dias, porque era protocolo de trauma hepático. Chorei mais ainda, mas a dor ficou tão intensa que não conseguia nem chorar. Tomei vários medicamentos e nada fazia passar a dor. É indescritível a dor, dias sem comer, sem dormir, sem levantar, porém dias piores estavam por vir e eu nem imaginava o que seria minha vida nos próximos meses.


Capítulo 1 - São Caetano

Período: 11/10/09 – 22/10/09

Fiquei internada no hospital Maria Braido, na cidade de São Caetano, por 12 dias. Minha mãe deixou tudo e foi pra lá. Quando ela chegou tudo melhorou. Consegui tomar um bom banho e me livrar de todo aquele sangue que ficou no meu cabelo por 3 dias. Banho de cadeira de rodas, meus movimentos estavam limitados por causa da dor. Minha barriga cresceu muito. Eu ainda não sabia que havia dois litros de sangue ali no fígado.

Fui muito bem atendida em São Caetano, por uma equipe de cirurgiões excelente. Porém, não cogitaram a possibilidade ou a necessidade de cirurgia. Saí do hospital com a indicação de repouso.

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Segundo a equipe, meu corpo reabsorveria todo aquele sangue e só dependeria do meu repouso. Apesar de odiar essa idéia segui a risca. Nunca fiquei em repouso na vida. Sou ligada “no 220”, pra ficar parada é o maior sacrifício do mundo. Mas fui uma excelente paciente porque queria ficar boa e voltar logo.


Capítulo 2 - Jaú

Período: 22/10/09 – 10/12/09

De volta em casa fiquei totalmente em repouso, deitada praticamente o dia todo e um pouco sentada em frente ao computador. Quem é atleta conhece muito bem o organismo, e eu sentia que não estava bem. Nessa altura parecia que estava grávida no estômago. O sangramento era tão grande que comprimia e empurrava o estômago e o pulmão. Procurei um médico, um especialista em fígado, que me indicou um cirurgião. Fiz vários e vários exames, até que comecei a passar mal. Comecei a vomitar e ter febre. O médico optou por uma pequena cirurgia chamada Laparoscopia de vídeo. Um pequeno corte acima do umbigo para drenar o sangue que estava no fígado. No dia que antecedeu a cirurgia vomitei o dia todo, nada parava no estômago, nem água.


Capitulo 3 – De volta ao Hospital: 1ª Cirurgia

Período: 10/12/09 - 15/12/09

Foi uma cirurgia rápida por laparoscopia de vídeo, no dia 10 de dezembro, 2 meses após o acidente. Um pequeno corte acima do umbigo, no máximo 3 centímetros. Foram retirados 2 litros de sangue. A parte ruim foi o dreno. Um “cano” bem desconfortável que saia de dentro do fígado e externava numa bolsinha coletora. Mas rapidamente fui liberada do hospital e voltei para casa.


Capitulo 4 – A Recuperação: Certamente o Natal 2009 não foi um dos melhores!

Período: 15/12/09 a 28/12/09

Todos os dias eu quantificava o líquido que saia de dentro do fígado. Passei o Natal assim. Com uma dor terrível, um forte incomodo e toda assada na região do dreno, localizado na lateral direita, abaixo da última costela. Formaram-se bolhas no local porque a bolsinha era “colada” à pele e o líquido às vezes vazava, a “cola” e o líquido provocaram uma irritação fantástica. Certamente o Natal de 2009 não foi dos melhores e muito menos o Ano Novo.

Visitava o hospital duas vezes por semana pra trocar a bolsinha e falar com o Doutor Joel, um excelente médico. Não via a hora de retirar aquele “cano”, passei praticamente os 18 dias sem conseguir dormir. No dia 28 de dezembro na parte da manhã o dreno foi retirado. Senti-me feliz, animada e pensei que seria o fim daquela fase. À tarde comecei a sentir dor, muita dor. Tentei contactar meu médico e não consegui. Vésperas de ano novo, tudo mais difícil. Fui ao pronto socorro e naquela noite fui internada. Na terça-feira, 29 de dezembro, pela manhã eu fiz uma série de exames. Doutor Joel chegou ao meu quarto no final da manhã e me disse: Vamos operar agora.


Capitulo 5 – Véspera de Ano novo: Nova Cirurgia

Período: 29/12/09 – 03/01/10

Eu sabia que seria uma cirurgia maior, ele havia me informado que se a laparoscopia de vídeo não funcionasse seria feita uma laparostomia, ou seja, eu seria aberta ao meio, literalmente, uma abertura de 12 cm. Fui tranqüila pra sala de cirurgia, tinha plena confiança no médico, sem medo algum. Sem medo porque não tinha idéia do pós-operatório de uma cirurgia de porte grande. Se eu soubesse...

A cirurgia durou em torno de 4 horas. Uma parte do fígado foi retirada. Acordei da cirurgia com muita dor e uma sonda naso-gástrica pra retirar o vômito causado pela anestesia geral. Vomitei por três dias seguidos. Fiquei 5 dias sem me alimentar e sem me levantar.

                                                          
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Para lembrar e rir...

Um episódio que hoje é motivo de riso pra mim, mas que foi desesperador: com a sonda naso-gástrica eu não conseguia mexer meu pescoço, pois ela batia na lateral da garganta e me fazia vomitar mais ainda. Um dia eu fiquei muito nervosa. A dor era intensa e aquela sonda me incomodando. Pedi pra enfermeira retirar. Desesperei. Pedi pra ligarem pro médico. Nada poderia ser feito. Eu simplesmente arranquei a sonda. Fui puxando de dentro de mim. Quando a enfermeira voltou ao quarto ela não acreditava. Depois passei o resto do dia rezando pra não vomitar mais, caso contrário a sonda seria passada “a seco”. Foi o assunto daquela ala por vários dias *rs*.

Ano Novo

É triste pra quem nunca passou por uma situação dessas se ver sentada numa cadeira de rodas, com um corte enorme na barriga e sendo ajudada por uma enfermeira pra poder tomar um banho. O Hospital Amaral Carvalho é um hospital de referência em Câncer e ali havia
pessoas que estavam sofrendo muito mais do que eu. Realmente era doloroso pra mim, mas eu tinha certeza que ficaria bem, que tudo ia passar. Muitas das pessoas que estavam ali não sabiam se ficariam bem, inclusive minha companheira de quarto que morreu.

Ouvi os fogos em comemoração ao Ano Novo deitada na cama.
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2010

Entrei em 2010 no hospital contando as horas que não passavam. Apesar dos remédios pra dormir eu dormia muito pouco.

A Primeira Prova de Ciclismo do Ano – Copa América

A Copa América eu vi no hospital. Meu médico me visitava todos os dias logo cedo. Naquele domingo ele estava demorando. Pensei: ele vai chegar na hora da chegada da prova. Não deu outra. Ele chegou desligou a TV pra poder me examinar e eu nem vi a chegada. Não vi a chegada, mas felizmente tive alta naquele dia.


Capítulo 6 – Recuperação em Casa

Período: 03/01/10 - 28/02/2010

Quando fui pra casa, as dores continuaram por mais 40 dias, incessantemente. Passei o mês todo sem dormir. Não conseguia nem mexer o pescoço e dependia da minha mãe para absolutamente tudo. Fiquei também toda cheia de bolhas na barriga por conta dos curativos.
Os dias foram lentamente passando, as dores amenizaram até que um dia sumiram!! Foi de vez! Depois de 40 dias da cirurgia praticamente pulei da cama. Passei a me sentir bem. Melhorar, melhorar, melhorar e recuperar os quase 10 kg perdidos.

No final de Fevereiro quando já estava me sentindo bem e super ansiosa para voltar, eu peguei a minha bike que ficou o tempo todo na casa do meu companheiro de equipe, André Pullini. Deixei-a pronta pro retorno.


Capítulo 7 – Enfim a Boa Notícia


Foi no dia 03 de Março que o Dr. Joel disse que eu poderia retomar lentamente atividades físicas de baixa intensidade.
Quando recebi a notícia eu fiquei tão elétrica, tão eufórica, que no dia seguinte já sai para pedalar.

Rodei uma horinha bem leve. Meu Deus! Não lembrava o quanto era difícil. Com 15 min não aguentava mais. Como machuca! Mas sabia que teria tempo suficiente para calejar de novo. Fiquei muito, muito, muito feliz!

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Capítulo 8 – O Retorno

Embora feliz por ter superado esses 5 meses de recuperação o retorno é outra luta. Nem todos sabem o quanto é difícil recomeçar, mas para quem lutou pela vida com certeza a recuperação da forma física é o de menos.

Acho que um fator que me deu muita força durante todo esse tempo foi o fato de nunca me perguntar por que isso aconteceu. Tudo na vida acontece por algum motivo e eu confio nos planos de Deus. Pensei o tempo todo em me recuperar, pensei positivo e isso tornou essa jornada menos dolorosa. Tudo depende da forma como olhamos.

Exercitei demais a paciência durante esse período e “olhar pro lado” ganhou um significado maior em minha vida.


Uma Mensagem

Não desejo a ninguém a mágoa que ainda sinto em relação à falta de consideração da atleta que causou o acidente. Todos devem ter a consciência que isso pode acontecer com qualquer um!
Por isso eu peço a todos que antes de agir inconseqüentemente causando dano a alguém, de forma intencional ou não, que pense duas vezes, pois a sua conduta pode gerar graves conseqüências. E se, em algum momento da sua vida, isso acontecer, não esqueça que você também faz parte da cena e a parte atingida merece um pouco de consideração e solidariedade. Ligue, procure, mande um email mostre humanidade. Tenho a plena convicção de que acidentes acontecem, mas também tenho convicção que somos pessoas, atletas, e que a solidariedade faz parte dos seres humanos. Alguns. Outros preferem a frieza da alienação. Estes pra mim não são humanos e muito menos servem para serem atletas.


Agradecimentos


Obrigado a todos que torceram por mim. Obrigada a todos os meus amigos que me deram total apoio e força durante esse tempo. A minha família. A minha mãe pela doação integral. Ao meu médico pelo empenho, as enfermeiras pela paciência. A Deus.


"Nunca desista das ações do seu plano de vida,
 pois cultuar a esperança de uma vitória
é melhor que eternizar derrota"