Culpa da bicicleta
Silenciosamente, a bicicleta invadirá sua vida. Sabia que ela estava tomando conta de tudo. Ela não, elas. Agora já eram cinco. No início uma só, que ficava em um cantinho da área de serviço. Na época ainda parecia uma pessoa normal. O emprego, a casa, o marido, as roupas, tudo igualzinho de gente normal. Mas ela ficava lá no canto, cabisbaixa. Guidão borocoxô, pneus murchos, bagageiro arriado. Sonsa, pura chantagem emocional. Não resistia e a levava para passear. Mas ela, insaciável, sempre queria mais. Começou a fazer cara triste todo dia, uma agonia só. O jeito era evitar a área de serviço. Foi pior, passou a ouvir vozes: “Ei, psiu, Paracambi. Psiu, psiu, psiu, Paracambi é logo ali”. Maquiavélica, ela. A bicicleta. Quando o marido, digo, ex-marido ficou aborrecido por que a mulher só queria saber de girar por aí, elas foram embora. Ela e a bicicleta. Conquistar sua liberdade, por que liberdade concedida não interessa.
Mas a bicicleta queria mais, mais bicicletas. Começaram a chegar outras. O apê de Copa ficou pequeno, seria preciso uma casa maior. No subúrbio é mais barato, e foram todas elas para um bairro afastado, em um apartamento grandão. Ardilosas. Da área de serviço ocuparam um quarto inteiro. No trabalho questionaram sua sanidade mental: hora de mudar de emprego. A família assustava-se: filha que ia de bicicleta almoçar em Jaconé só podia estar maluca. Tudo culpa dela, da bicicleta. Contudo algo ia errado, muito errado. Estavam rodando menos por aí: a dona andava cabisbaixa, assim meio borocoxô. Olhos murchos, cara arriada, tal qual bicicleta encostada. Aquela alma, que antes pedalava nas nuvens, ultimamente girava meio nublada. Arquitetaram então um plano: aumentar a família. Precisariam de mais gente sobre duas rodas. Encontraram a vítima perfeita: um ciclista dentista, para juntar escovas de dente e as magrelinhas. E a dona, moça pequenina, descobriu como sentir grande. Grande, mas tão grande, de mal caber no peito.
Thais de Lima Pedale que o mundo gira! Essa é a filosofia de vida de Thais de Lima, carioca de 28 anos que em 2009 criou a personagem “Mulher de Ciclos” por meio da qual conta suas aventuras sobre duas rodas >>> visite: www.mulherdeciclos.com